Entenda por que a mudança de nome para SOMP representa uma visão mais completa da condição que afeta mais de 170 milhões de mulheres no mundo
Uma das condições mais comuns entre mulheres em idade reprodutiva acaba de ganhar um novo nome: a Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) passa a ser chamada de Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP).
Essa mudança, publicada recentemente na revista médica The Lancet, é resultado de um amplo consenso internacional que reuniu 56 organizações científicas, clínicas e associações de pacientes de diferentes regiões do mundo, além de mais de 14 mil respostas em pesquisas globais.
E ela era necessária.
Isso porque o antigo nome já não representava toda a complexidade da condição. Além disso, carregava um conceito impreciso ao focar excessivamente na presença de múltiplos cistos ovarianos, que na verdade são folículos com crescimento interrompido.
Hoje, sabe-se que a Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina envolve alterações metabólicas, hormonais, inflamatórias e reprodutivas, com impactos importantes na fertilidade e na saúde da mulher ao longo da vida.
Por que essa mudança é importante?
O termo Síndrome dos Ovários Policísticos já não conseguia representar toda a complexidade da condição. Durante muitos anos, o nome levou à ideia de que o problema estaria restrito aos ovários. No entanto, nem toda mulher com a síndrome apresenta ovários com aspecto policístico ao ultrassom, o que muitas vezes também contribui para atrasos no diagnóstico.
Hoje, sabe-se que a síndrome vai muito além do sistema reprodutivo e envolve alterações simultâneas em múltiplos hormônios, como a insulina, os androgênios, o hormônio luteinizante (LH) e o hormônio antimülleriano (AMH).
A nova nomenclatura, Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina, reforça justamente essa visão mais ampla e integrada da condição, reconhecendo seu caráter:
- metabólico;
- hormonal;
- inflamatório;
- reprodutivo;
- e multifatorial.
A resistência à insulina está presente em grande parte das mulheres com Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina, inclusive em muitas pacientes magras. Hoje, ela é considerada um dos principais mecanismos envolvidos na doença, associando a síndrome a alterações hormonais, dificuldade de ovulação e maior risco cardiometabólico ao longo da vida.
Diagnóstico da SOMP
Apesar da mudança no nome, os critérios diagnósticos permanecem os mesmos, especialmente os Critérios de Rotterdam. Nas mulheres adultas, o diagnóstico depende da presença de pelo menos dois entre três critérios, após a exclusão de outras condições hormonais semelhantes:
- ciclos menstruais irregulares ou ausência de ovulação;
- sinais clínicos ou laboratoriais de hiperandrogenismo, como aumento dos hormônios androgênicos detectados no exame físico ou em exames de sangue;
- morfologia ovariana compatível ao ultrassom ou níveis elevados do Hormônio Antimülleriano (AMH).
Em adolescentes, o diagnóstico deve ser feito com ainda mais cautela. Isso porque alterações hormonais e menstruais podem fazer parte do desenvolvimento puberal normal. Por esse motivo, recomenda-se a presença simultânea dos três critérios nessa faixa etária.
E o tratamento, mudou?
Embora os pilares do tratamento permaneçam semelhantes, a nova nomenclatura amplia a forma como médicos e pacientes compreendem e abordam a condição, favorecendo uma visão mais integrada, individualizada e abrangente da síndrome. Essa abordagem pode incluir:
- mudanças no estilo de vida;
- acompanhamento nutricional;
- atividade física;
- melhora na qualidade do sono;
- controle metabólico;
- manejo do estresse;
- suplementação individualizada;
- e medicamentos específicos, como anticoncepcionais hormonais, antiandrogênicos e metformina, quando indicados.
SOMP e fertilidade
A dificuldade para engravidar é uma das manifestações mais conhecidas da Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina. Isso acontece porque as alterações hormonais e metabólicas da síndrome podem interferir diretamente na ovulação, levando a ciclos irregulares ou até ausência de ovulação.
Além da ovulação, fatores como resistência à insulina e inflamação também podem impactar a qualidade dos óvulos, o desenvolvimento folicular e o ambiente reprodutivo.
Mas é importante reforçar: ter SOMP não significa impossibilidade de engravidar, inclusive de forma natural.
No entanto, quando existe dificuldade para engravidar, o acompanhamento especializado permite investigar as causas e definir a melhor estratégia para cada mulher. Em muitos casos, ajustes no estilo de vida e a indução da ovulação já permitem alcançar a gestação com tratamentos menos complexos, como o coito programado.
Quando necessário, outros tratamentos podem ser indicados de forma individualizada, incluindo a Fertilização in vitro (FIV).
Mais importante ainda é compreender que fertilidade e metabolismo estão intimamente conectados e que cuidar da saúde hormonal e metabólica pode impactar diretamente os resultados reprodutivos.

